segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Lamento.

O dia está frio.
A tarde está nublada.
O vento sopra impiedoso.
O cabelo cai no rosto.
Eu ando até a calçada.
Não tenho nada...
Nada além da lembrança
E a lembrança é uma semente mal regada...
Restou sobre as flores, o orvalho da madrugada
E cada gota que escorre pelas pétalas
Mais parecem lágrimas...
Mas o tempo consome todas as mágoas,
Vamos perdendo coisas ao longo da estrada
E o dia está frio.
E a tarde está nublada.
O vento move o cabelo daquela que fora amada,
Que não passa mais por esta rua
Que ficou em algum lugar da estrada.

Carlos A. Santana.

sábado, 12 de novembro de 2011

Definições do Poeta (ou As Quatro Estações).


Paixão:
Vento avassalador que apaga a luz da razão,
E faz florir, de repente, uma flor
Antes despercebida no jardim.
É a primavera nos pegando sempre de surpresa,
Depois dos meses de inverno.
O inverno, porém, sempre volta
Frio e cinzento
Também volta de assalto, a razão
Depois que a chama se apaga
E a cálida primavera se vai,
O que resta
Chamamos amor.

Amor:
Todos sentem, ninguém entende – nem define.
Tantos amam, outros tantos, igualmente, não são amados
Faz parte da utopia humana.
O amor não é credor,
Não cobra
Não onera
Não troca
Não contrata
E, também, não existe.

Solidão:
É sentir-se só, mesmo entre tantos
É quando a tristeza dá um nó,
Um travo amargo na língua
E a noite de verão é fria, insone
Desfaz-se em prantos
Em uma manhã cinza de sol.
Solidão é a cura da vaidade
É sentir saudade
Mesmo daquilo que nunca se teve de verdade.

Saudade:
É estar, mesmo em pensamento, de volta ao mesmo lugar,
Preso no momento.
Semente solta no vento
Germina os campos da lembrança,
Cultivados pelos escravos do tempo
Que correm atrás da própria sombra
Daquele instante de felicidade
Que jaz, talvez em paz,
Sepultado para sempre em algum lugar do pensamento.

Carlos A. Santana.

sábado, 15 de outubro de 2011

Responsabilidade Social


Tenho ouvido muito falar em Responsabilidade Social, fundamentalmente, de pessoas que não são dignas de proferir tais palavras. Tenho percebido que, independentemente do discurso político do individuo, nem os capitalistas, nem os pseudo socialistas, tem moral para falar em Responsabilidade Social.
Responsabilidade Social é oportunizar que indivíduos deixem uma realidade de miséria e de precariedade infraestrutural e ascendam a condições dignas de vida, que possam galgar seu espaço dependendo unicamente de seus méritos. É fazer com que os jovens que vivem nas comunidades mais carentes deste país, possam chegar ao mercado de trabalho, e receber em troca dele uma remuneração digna, que condiga com seu esforço. Causa-me verdadeiro embaraço, náusea e vergonha, um país que trata tão mal os seus, dando a pior remuneração àquele que já tem o pior trabalho, e as piores condições de vida àquele que sofre muito mais os verdadeiros riscos de mercado.
 Responsabilidade Social não deve ser um assistencialismo puro e simples, fomentador de rebanhos eleitorais guiados pelo instinto mais primitivo do homem: o instinto de sobrevivência. Muito mais do que aos políticos eleitos por um sistema viciado, cabe a sociedade a responsabilidade de mudar esta realidade. O empresário sem escrúpulos deve ser banido do mercado e seu produto rejeitado. Os pseudo pensadores, independentemente das tendências de seu discurso, que não trabalharem efetivamente para mudar este quadro, devem ter sua obra ignorada pelas futuras gerações. O Estado deve criar meios justos e equânimes, a fim de promover condições iguais àqueles que a vida deu caminhos diferentes. O Estado deve justapor seus entes, fundamentalmente, os mais fragilizados pelos séculos de exploração dos mais necessitados.
Um país deve aprender lições com sua história, deve fomentar as ações positivas, independentemente de bandeiras ou motivações fugazes, e deve repudiar com veemência todos os atos genitores de preconceito, racismo e desigualdade social. Uma nação não deve permitir-se criar prerrogativas e benesses a fim de locupletar alguns poucos, que o único mérito tenha sido se valer de um sistema desigual e injusto.
 Responsabilidade Social não é uma frase em um mural, ou um troféu na sala do chefe. Eu morei 28 anos em uma comunidade muito pobre, precária e indigna, que, por ironia, se chamava Vista Alegre. Na Vista Alegre, a vista da minha janela não era tão alegre (foto acima). Continuo vivendo em uma comunidade pobre, porém teimei, lutei contra as circunstâncias e me foi oportunizado o ingresso no ensino superior, o que me proporcionou novos horizontes. Hoje, minha meta de vida é trabalhar arduamente e usar de minha futura profissão para levar esperança e oportunidade para meus irmãos, que assim como eu, nasceram já sentenciados a uma vida de subserviência e privações. Penso que devolver ao próximo o que me foi oportunizado é fazer de minha futura profissão uma escolha honrada. Isso é Responsabilidade Social. O resto é conversa. 

Carlos A. Santana.      

sábado, 20 de agosto de 2011

Tímido Protesto.


Eu queria ser mais alto.
Eu queria ser mais magro.
Eu queria ter os olhos claros.

Eu queria ser mais bonito.
Eu queria ser mais rico.
Eu queria ter o “pinto” do tamanho de um pé de mesa.

Eu preciso te tirar da minha cabeça.
Por favor, esqueça!
Digo ao meu coração.

Errar faz parte
Porém na minha idade
Não quero mais romance pela metade.

E ajudaria se eu ao menos tivesse um carro.

Carlos A. Santana.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Letras:

             “Os ratos”

Calado. Impotente. De braços amarrados. Com a dor de um grito trancado, preso na garganta. O gosto mais amargo, o travo mais bravo que a língua fora feita para suportar. Estampadas na cara, as lágrimas, apesar de não rolarem. Não molham a cara, nem lavam a alma. Mas estão ali. Ratos em suas gaiolas. Peixes no aquário, sob o olhar do gato. Todos acreditando serem livres, porém são dados caóticos de uma fórmula sem sentido, resolvida ao mero acaso. E tudo começa no parto. E tudo acaba no quarto. As marionetes do sádico seguem a dançar. Estão caladas. São impotentes. Esperam de braços amarrados na pior prisão: aquela onde não há parede. Os ratos estão fora da grade, porém correm para voltar para trás dela. Na falsa promessa da rotina. No falso conforto dos muros, que somente apartam os mundos: o dos que querem entrar, daqueles que querem tudo como está.

Carlos A. Santana.

Outro breve manifesto.


Eu conheço lugares, mas não vejo lares
Nos caminhos tortos que eu traço até a condução
Este monstro de metal é indigno,
Porém é meu avião.

Entre minha vida e a novela, há um vidro
Que eu tento, inutilmente, quebrar
O maldito aparta o plano real
Do que vislumbro aprazível. 

Carlos A. Santana.

domingo, 7 de agosto de 2011

Breve manifesto:


Entre becos e vielas
Entre barracos e palafitas,
Moradias indignas de qualquer favela.
A barganha nossa de cada dia,
Negociando princípios em troca de salário mínimo
Humilhados, correndo atrás da condução
Epopéia em busca de pão.

Carlos A. Santana.