sábado, 20 de agosto de 2011

Tímido Protesto.


Eu queria ser mais alto.
Eu queria ser mais magro.
Eu queria ter os olhos claros.

Eu queria ser mais bonito.
Eu queria ser mais rico.
Eu queria ter o “pinto” do tamanho de um pé de mesa.

Eu preciso te tirar da minha cabeça.
Por favor, esqueça!
Digo ao meu coração.

Errar faz parte
Porém na minha idade
Não quero mais romance pela metade.

E ajudaria se eu ao menos tivesse um carro.

Carlos A. Santana.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Letras:

             “Os ratos”

Calado. Impotente. De braços amarrados. Com a dor de um grito trancado, preso na garganta. O gosto mais amargo, o travo mais bravo que a língua fora feita para suportar. Estampadas na cara, as lágrimas, apesar de não rolarem. Não molham a cara, nem lavam a alma. Mas estão ali. Ratos em suas gaiolas. Peixes no aquário, sob o olhar do gato. Todos acreditando serem livres, porém são dados caóticos de uma fórmula sem sentido, resolvida ao mero acaso. E tudo começa no parto. E tudo acaba no quarto. As marionetes do sádico seguem a dançar. Estão caladas. São impotentes. Esperam de braços amarrados na pior prisão: aquela onde não há parede. Os ratos estão fora da grade, porém correm para voltar para trás dela. Na falsa promessa da rotina. No falso conforto dos muros, que somente apartam os mundos: o dos que querem entrar, daqueles que querem tudo como está.

Carlos A. Santana.

Outro breve manifesto.


Eu conheço lugares, mas não vejo lares
Nos caminhos tortos que eu traço até a condução
Este monstro de metal é indigno,
Porém é meu avião.

Entre minha vida e a novela, há um vidro
Que eu tento, inutilmente, quebrar
O maldito aparta o plano real
Do que vislumbro aprazível. 

Carlos A. Santana.

domingo, 7 de agosto de 2011

Breve manifesto:


Entre becos e vielas
Entre barracos e palafitas,
Moradias indignas de qualquer favela.
A barganha nossa de cada dia,
Negociando princípios em troca de salário mínimo
Humilhados, correndo atrás da condução
Epopéia em busca de pão.

Carlos A. Santana.

A poesia é um espelho.

Entretanto.

Entre a luz e a escuridão
Entre o sentir e a razão
Entre a ciência e a poesia
Entre infelicidades, um pouco de alegria
Entre o movimento e a apatia
Entre o momento e o infinito
Entre feios e bonitos
Entre o raso e o profundo
Entre o sagrado e o mundo
Entre o desgraçado e o sortudo
Entre a cruz e a espada
Entre ter um pouco ou não ter nada
Entre a prostração e a risada
Entre a fé e a medicina
Entre a doença e a vacina
Entre o rico e o pobre
Entre o potável e o podre
Entre eles e elas
Entre palácios e favelas
Entre o real e a novela
Entre viver ou morrer
Entre duvidar ou crer
Entre o cristão e o pagão
Entre conhecer e ignorar
Entre partir e ficar
Entre permanecer ou mudar
Entre escolher ou esperar
Entre anjos e demônios
Entre a novidade e o cotidiano
Entre os fatos e os sonhos
Entre o verde e o castanho
Entre o normal e o estranho
Entre o azul e o vermelho
Entre a verdade e o espelho
Entre a repulsa e o desejo
Entre o que vê e o que vejo
Entre rios, entre meios
Entre a chuva e o sol
Entre vôlei e futebol
Entre o lírico e o popular
Entre os que cantam e os que desafinam
Entre os que nascem e os que findam
Entre o que cala e o que fala
Entre o grito e o silêncio
Entre os que esperam, não espero nada.
Entre elevadores, estou na escada
Entre aquele, entre este, entre tantos!
No entanto, de lado algum
Cozido e cru
Subjugado entre o que existe e o que não inventei
Desde que morri quantos matei?
Entre o capital e os comunistas
Sigo isento dos jornais e das revistas
Errante na terceira via
Estático na correria
Na corda bamba, com a corda no pescoço
Brigo com outros cachorros
Por meu próprio osso
Apanhando da policia e do bandido
Sem poste, sem penico
Com a latrina no ouvido
Figurante em meu próprio filme
Barrado na festa
Sem par no baile
Com “idiota” escrito na testa
Com mais palavras do que papel
Este sou eu.
Entretanto,
Sem Deus
Só.

Carlos A. Santana.

Reflexões:


            Não tenho hábito de assistir filmes de amor. Não me considero um fiel combatente do gênero, do tipo macho, assistindo filmes onde tudo explode, cheios de outros machos suados e chamuscados pelas chamas da explosão que, por vezes, estão se engalfinhando com outros machos pelo chão. Não. Somente não tenho o hábito. Acho que quando adolescente assisti muito dessa merda (que me perdoem os amantes deste gênero cinematográfico) imbuído de esforços no intento de ser merecedor da atenção de uma das meninas da escola, da rua, sei lá, poderia ser qualquer uma... mas não. O que eu acabava arranjando era mais uma que diria o seguinte: “você é meu melhor amigo e não quero estragar nossa amizade”. Caralho! Que lógica maluca! Não fica com amigo... fica com quem, com o inimigo? Bem, deixarei de lado, por um instante, as mágoas do passado, e a frustração de tentar entender a “alma feminina”, prometendo me ater aos filmes de amor.
            No final de semana, estava eu, no sofá, trocando de canal, na plenitude de meu culto ao ócio, quando me deparei com a seguinte situação: é domingo. Mesmo com TV por assinatura, não tem muito para ver. Para eu não me sentir mais idiota do que é de costume, por pagar para assistir TV, decidi deixar em qualquer canal. No canal de escolha, escolha viciada pela falta de opção, estava iniciando um filme. Pensei para mim, tentando obviamente me enganar, ao menos este filme vou pegar desde o inicio... eis que surge o título na tela: “Sleeping Dictionary” e aquela voz de dublagem nacional, inconfundível (e queira deus, se é que algum existe, que além de inconfundível, seja única, para que morra junto com este desgraçado) dizendo: “Dicionário de cama”. Fiz merda, logo pensei. Porém quando vi nos créditos iniciais o nome da Jessica Alba, com aquela música melosa e triste ao fundo... vai que rola uma pagada de peitinho ao menos. Permaneci, na esperança de que o filme não fosse muito ruim.
            O filme era o mais clássico do óbvio em um domingo frio – muito frio – em plena tarde. O clichê do romance proibido, “Romeu e Julieta”, “Pocahontas”, “A Pequena Sereia” e tantos outros. Era mais do gênero romance indianista, tipo “O Guarani”, de José de Alencar. Porém, surpreendentemente, “Dicionário de cama” é bom. Não que “O Guarani”, de José de Alencar, não seja bom. Não. Acho que é trauma das aulas de literatura do colégio, onde se lê por obrigação e não pelo apreço a literatura. E, principalmente, por se tratar de leitura obrigatória (sente o peso desta palavra) no vestibular da Universidade Federal, no qual nunca fora aprovado. Bem, de fato, eu gostei do filme. Ainda não sei se minha boa impressão acerca do filme se deu pela minha baixa expectativa em relação a ele, pelo clima nostálgico, natural de um domingo frio, em plena tarde, ou pela carga emocional, inerente a estes romances fadados ao fracasso que, por ventura, despertou algo adormecido em meu âmago. Ainda não sei.
            Bem, até o presente, de fato, é possível elucidar que, de certa forma, apreciei a experiência de assistir um filme de amor. Como disse, o enredo é mais na linha do romance indianista: são dois mundos diferentes, cada um dos amantes se vê dividido entre duas realidades, ao passo que os indivíduos já não pertencem mais a lugar nenhum. Contudo, em “A Pequena Sereia”, também existe o dilema de dois mundos: sou peixe, sou mocinha, sou da terra, sou da água, etc. Tudo bem. Concordo. Porém eu digo que “Dicionário de Cama” é mais do gênero “Peri” e “Ceci”, pois tem atrelado consigo toda aquela carga do romance indianista, onde a cultura do colonizador subjuga a cultura do nativo, tornando-o hipossuficiente. Entende? Em uma relação “homem branco” versus “índio”, o índio, invariavelmente, perderá. E o final não será feliz. Sendo assim, é diferente de “A Pequena Sereia”.
            O cenário e o enredo do romance têm como plano de fundo um fato histórico: o domínio inglês na Malásia. A atenção aos detalhes e a fidelidade para com os fatos históricos, sem dúvida chamaram minha atenção. Porém, refletindo mais um pouco, penso que não foi somente isso que me chamou atenção no filme. Eu me sinto em um momento romance fadado ao fracasso. Sinto-me meio lá, meio cá. (ficou meio gay esta frase). Explico: Para mim, sempre foi muito difícil me relacionar com as pessoas. Não sou o mais simpático, não sou muito de sorrir, não sou o mais bonito, nem o mais rico. E seria mais fácil, se ao menos eu fosse, no domingo, à igreja, ou tivesse uma religião, ou simplesmente – como alguns dizem – acreditasse em alguma coisa. Mas não. Eu sou ateu, não tenho time de futebol, não tenho cachorro, não me emociono com crianças, acho que todas têm a mesma cara. Enfim, “que sujeito chato sou eu que não acha nada engraçado”...

Carlos A. Santana.