Não tenho hábito de assistir filmes de amor. Não me considero um fiel combatente do gênero, do tipo macho, assistindo filmes onde tudo explode, cheios de outros machos suados e chamuscados pelas chamas da explosão que, por vezes, estão se engalfinhando com outros machos pelo chão. Não. Somente não tenho o hábito. Acho que quando adolescente assisti muito dessa merda (que me perdoem os amantes deste gênero cinematográfico) imbuído de esforços no intento de ser merecedor da atenção de uma das meninas da escola, da rua, sei lá, poderia ser qualquer uma... mas não. O que eu acabava arranjando era mais uma que diria o seguinte: “você é meu melhor amigo e não quero estragar nossa amizade”. Caralho! Que lógica maluca! Não fica com amigo... fica com quem, com o inimigo? Bem, deixarei de lado, por um instante, as mágoas do passado, e a frustração de tentar entender a “alma feminina”, prometendo me ater aos filmes de amor.
No final de semana, estava eu, no sofá, trocando de canal, na plenitude de meu culto ao ócio, quando me deparei com a seguinte situação: é domingo. Mesmo com TV por assinatura, não tem muito para ver. Para eu não me sentir mais idiota do que é de costume, por pagar para assistir TV, decidi deixar em qualquer canal. No canal de escolha, escolha viciada pela falta de opção, estava iniciando um filme. Pensei para mim, tentando obviamente me enganar, ao menos este filme vou pegar desde o inicio... eis que surge o título na tela: “Sleeping Dictionary” e aquela voz de dublagem nacional, inconfundível (e queira deus, se é que algum existe, que além de inconfundível, seja única, para que morra junto com este desgraçado) dizendo: “Dicionário de cama”. Fiz merda, logo pensei. Porém quando vi nos créditos iniciais o nome da Jessica Alba, com aquela música melosa e triste ao fundo... vai que rola uma pagada de peitinho ao menos. Permaneci, na esperança de que o filme não fosse muito ruim.
O filme era o mais clássico do óbvio em um domingo frio – muito frio – em plena tarde. O clichê do romance proibido, “Romeu e Julieta”, “Pocahontas”, “A Pequena Sereia” e tantos outros. Era mais do gênero romance indianista, tipo “O Guarani”, de José de Alencar. Porém, surpreendentemente, “Dicionário de cama” é bom. Não que “O Guarani”, de José de Alencar, não seja bom. Não. Acho que é trauma das aulas de literatura do colégio, onde se lê por obrigação e não pelo apreço a literatura. E, principalmente, por se tratar de leitura obrigatória (sente o peso desta palavra) no vestibular da Universidade Federal, no qual nunca fora aprovado. Bem, de fato, eu gostei do filme. Ainda não sei se minha boa impressão acerca do filme se deu pela minha baixa expectativa em relação a ele, pelo clima nostálgico, natural de um domingo frio, em plena tarde, ou pela carga emocional, inerente a estes romances fadados ao fracasso que, por ventura, despertou algo adormecido em meu âmago. Ainda não sei.
Bem, até o presente, de fato, é possível elucidar que, de certa forma, apreciei a experiência de assistir um filme de amor. Como disse, o enredo é mais na linha do romance indianista: são dois mundos diferentes, cada um dos amantes se vê dividido entre duas realidades, ao passo que os indivíduos já não pertencem mais a lugar nenhum. Contudo, em “A Pequena Sereia”, também existe o dilema de dois mundos: sou peixe, sou mocinha, sou da terra, sou da água, etc. Tudo bem. Concordo. Porém eu digo que “Dicionário de Cama” é mais do gênero “Peri” e “Ceci”, pois tem atrelado consigo toda aquela carga do romance indianista, onde a cultura do colonizador subjuga a cultura do nativo, tornando-o hipossuficiente. Entende? Em uma relação “homem branco” versus “índio”, o índio, invariavelmente, perderá. E o final não será feliz. Sendo assim, é diferente de “A Pequena Sereia”.
O cenário e o enredo do romance têm como plano de fundo um fato histórico: o domínio inglês na Malásia. A atenção aos detalhes e a fidelidade para com os fatos históricos, sem dúvida chamaram minha atenção. Porém, refletindo mais um pouco, penso que não foi somente isso que me chamou atenção no filme. Eu me sinto em um momento romance fadado ao fracasso. Sinto-me meio lá, meio cá. (ficou meio gay esta frase). Explico: Para mim, sempre foi muito difícil me relacionar com as pessoas. Não sou o mais simpático, não sou muito de sorrir, não sou o mais bonito, nem o mais rico. E seria mais fácil, se ao menos eu fosse, no domingo, à igreja, ou tivesse uma religião, ou simplesmente – como alguns dizem – acreditasse em alguma coisa. Mas não. Eu sou ateu, não tenho time de futebol, não tenho cachorro, não me emociono com crianças, acho que todas têm a mesma cara. Enfim, “que sujeito chato sou eu que não acha nada engraçado”...
Carlos A. Santana.
Carlos A. Santana.
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